domingo, 21 de julho de 2013

Pesquisas com células-tronco para tratar o coração avançam no Brasil

Ao todo, 600 voluntários já participaram de um teste clínico considerado um dos maiores do mundo. A pesquisa envolve médicos e cientistas de 40 instituições do país.

O Jornal Nacional vai exibir, a partir desta quinta-feira (17), uma série de reportagens especiais sobre um setor da pesquisa científica que o mundo todo acompanha com atenção, e cheio de esperanças: as terapias experimentais com células-tronco que já estão sendo aplicadas em pessoas. O assunto de hoje é o tratamento de pacientes com problemas cardíacos.
Quem vê o aposentado Valter Lemos Filho bem disposto, não imagina como a saúde dele estava frágil. “Foram quatro enfartes”, conta ele.
Em 2010, ele apostou em um tratamento com células-tronco. Entre tantos avanços da medicina, o início do século XX foi marcado pela primeira vacinação em massa no Brasil. Depois, surgiram os antibióticos, com o uso em larga escala de remédios que salvaram milhões de vidas, e os transplantes viraram rotina nos anos 1980. No século XXI, a ciência avança nas pesquisas com células-tronco, a promessa da medicina regenerativa de usar um remédio que está dentro de nós.
O coração é um dos principais campos de estudo no Brasil. Uma novidade para o despachante aduaneiro Rosno Julião. “Estou otimista. Se não fizer bem, mal não vai fazer”, reflete ele.
A maca trazendo seu Julião surge no corredor. Ele participa de um teste clínico para casos de isquemia crônica, quando o coração não consegue receber o oxigênio necessário para funcionar bem. Há também testes para três outros tipos de insuficiência cardíaca. No caso do seu Julião, células-tronco adultas foram retiradas da medula óssea dele antes de uma cirurgia de revascularização para melhorar a circulação do sangue. Em seguida, as células-tronco foram levadas para um laboratório no Instituto de Cardiologia do Rio.
O processo do material retirado da medula óssea do paciente é sigiloso, e só o profissional que vai fazer esse trabalho é que na verdade sabe se o paciente vai receber implante de células-tronco mesmo ou um líquido, que é um placebo. A escolha é feita por sorteio, e o paciente não sabe o que vai receber.
"É o melhor padrão. Padrão ouro de um estudo que vise testar a eficácia de uma nova terapia", diz Antonio Carlos Campos de Carvalho, coordenador da pesquisa do Instituto Nacional de Cardiologia.
As células-tronco adultas foram, então, injetadas no coração do paciente. A expectativa é que elas possam restaurar a função cardíaca.
“Aquela área do coração que não tem como revascularizar, a gente procura injetar células-tronco na esperança que aquelas células-tronco se diferenciem em células do coração”, explica o cirurgião cardiovascular José Oscar Brito.
Ao todo, 600 voluntários já participaram desse teste clínico, considerado um dos maiores do mundo. A pesquisa envolve médicos e cientistas de 40 instituições do país.
“Seria a terapia ideal para um sistema público de saúde, porque você consegue processar essas células a baixo custo”, acrescenta Antonio Carlos Campos de Carvalho.
Imagens feitas durante uma pesquisa do Instituto do Coração, em São Paulo, mostram o caso de um paciente que melhorou: seis meses depois da cirurgia de revascularização e do implante com células-tronco, o coração ficou revigorado e batendo mais forte.
Seu Valter, como vimos no início da reportagem, voltou a ser ativo. “Meu coração está bom. Me abaixo, levanto, carrego alguma coisa, não altera nada”, comemora.
Os médicos ainda não prometem cura, mas o exemplo desse homem mostrou que a terapia tinha futuro: Nelson Águia estava desenganado quando recebeu, em 2001, a primeira aplicação no mundo de  células-tronco no coração. A lesão foi reduzida em quase 100%, e assim o paciente chegou aos 80 anos.
“Eu fiz com a maior satisfação, e com isso já estou aí há cerca de 12 anos”, contou ele em sua última entrevista. Ele morreu em setembro e deixou de herança um caminho que pode levar outros pacientes tão longe ou mais até do que ele foi.

Tratamento com células-tronco ajuda na recuperação de pacientes que tiveram AVC

Pacientes que tiveram células-tronco neurais injetadas no cérebro apresentaram melhoras nas funções cognitiva e motora

células-tronco
Células-tronco: os pacientes que receberam o tratamento apresentarem melhoras no equilíbrio, mobilidade e força das mãos (Thinkstock)
O primeiro teste clínico de um tratamento com células-tronco para vítimas de acidente vascular cerebral (AVC) apresentou resultados positivos. Realizado pela Universidade de Glasgow, na Inglaterra, o estudo será apresentado durante a Conferência Europeia sobre Derrame - que começa hoje em Londres e prossegue até 31 de maio.
De acordo com Keith Muir, pesquisador que está liderando o estudo, os nove pacientes que receberam o tratamento não tiveram efeitos adversos. Além disso, cinco deles apresentaram uma melhora de leve a moderada nas funções cognitiva e motora — equilíbrio, mobilidade e força nas mãos. Com isso, houve aumento na capacidade desses pacientes de realizar tarefas do dia-a-dia de forma independente.
Muir afirmou que os resultados ultrapassaram suas expectativas. Ele ressalta, porém, que ainda é difícil saber o quanto dessa melhora se deve exclusivamente ao tratamento, ou se pode ter havido algum tipo de efeito placebo.
Estudo — Os nove participantes do estudo tinham de 60 a 80 anos e haviam sofrido derrames de seis meses a cinco anos antes do início do tratamento. Eles tiveram células-tronco neurais injetadas diretamente na parte do cérebro que sofreu danos relacionados ao AVC.
A segunda fase dos testes clínicos, que tem por objetivo avaliar a eficácia do tratamento, deve ter início no segundo semestre deste ano. A ideia é que ela envolva inicialmente cerca de 20 pacientes que tenham sofrido um AVC há poucas semanas. Para que o estudo em torno de um novo tratamento seja concluído, é necessário que ele passe por três fases de testes clínicos.

Células-tronco da pele podem tratar insuficiência cardíaca

Cientistas mostraram que células adultas reprogramadas são capazes de se transformar em tecido do músculo do coração e regenerar órgão danificado

Células-tronco: tratamento após sessões da radiação pode devolver habilidades cognitivas a pacientes com câncer no cérebro
Células-tronco: cientistas conseguiram transformar células da pele em tecido do músculo do coração para tratar insuficiência cardíaca (Thinkstock)
Pela primeira vez, cientistas conseguiram retirar células-tronco pluripotentes induzidas da pele de pacientes com insuficiência cardíaca e transformá-las em um tecido saudável do coração. O estudo envolveu camundongos, mas, segundo os pesquisadores, a pesquisa indica que no futuro pacientes com problemas no coração  poderão ser curados com suas próprias células reprogramadas. Os resultados foram publicados nesta terça-feira no periódico European Heart Journal.
A pesquisa foi desenvolvida no Instituto de Tecnologia de Israel, na cidade de Haifa. A equipe retirou células-tronco da pele de dois homens com insuficiência cardíaca — um de 51 anos e outro de 61 anos — e alteraram o material genético delas. Depois, em laboratório, a equipe injetou as células reprogramadas em um tecido muscular cardíaco e transplantaram o novo tecido para o coração de camundongos. Os cientistas descobriram que as células conseguiram se transformar em células saudáveis do coração capazes de reparar danos no órgão. Não houve rejeição do tecido cardíaco original.
De acordo com os especialistas, embora os resultados sejam animadores, é importante que os pacientes saibam de que ainda é preciso muito estudo para que o procedimento se torne um tratamento clínico para insuficiência cardíaca. Os autores acreditam que os ensaios clínicos só poderão começar a ser feitos dentro de dez anos.

Estudo First-in-Man utilizando Células Tronco na Miocardiopatia Dilatada Não Isquêmica – Por Cristiano Cardoso

Recentes trabalhos têm mostrado o benefício da terapia celular em pacientes com miocardiopatia dilatada isquêmica e pós-infarto agudo do miocárdio. No entanto, em portadores de miocardiopatia dilatada idiopática, as células tronco não foram efetivamente testadas.
Essa semana, porém, foi publicado no Journal of American College of Cardiology (J Am Coll Cardiol 2006; 48: 2350-2351) o primeiro estudo em humanos (First-in-Man) utilizando essa terapia. O ABCD trial randomizou 44 pacientes com diagnóstico de miocardiopatia dilatada não isquêmica para tratamento com células tronco (CT, n=24) ou controle (Cont, n=20). Os critérios de inclusão foram presença de insuficiência cardíaca classe II-IV, fração de ejeção (FE) <35% e coronárias normais. O objetivo principal do estudo foi mudança na classe funcional, melhora na função ventricular e mortalidade. Após aspiração de medula óssea (50-60 ml), a fração mononuclear foi separada utilizando gradiente de densidade (Ficoll), e as células injetadas por uma técnica modificada. Por cateterismo cardíaco direito, o seio coronário foi obstruído com cateter de Swan-Ganz. Após a obstrução da drenagem venosa, 2/3 das células foram injetadas diretamente na coronária esquerda e, o restante, na coronária direita. No dia seguinte os pacientes foram liberados, sendo acompanhados clinicamente com 1 semana, 1 e 3 meses, e a seguir anualmente. A avaliação da terapia foi feita por ecocardiograma com estimativa da FE por método de Simpson. Atualmente com 6 meses de seguimento, o grupo que recebeu as células apresentou melhora na FE (20±7.4% para 25±12% no CT x 15±5.4% para 16±4.7% no Cont, p<0.05) e redução no volume sistólico final (144±85ml para 116±68ml no CT, p<0.05). Não houve alterações em ambos os grupos relacionados ao volume diastólico final. Com relação à mortalidade, nenhuma diferença significativa foi observada. Quatro pacientes morreram no grupo CT e 2 no controle. Considerando a mudança na classe funcional, no grupo tratado 16 pacientes (62%) regrediram para NYHA classe I, enquanto que no grupo controle somente 2 (10%) pacientes apresentaram melhora (p<0.0001). Outro aspecto importante no estudo foi a realização de biópsia miocárdica no início e aos 3 meses de acompanhamento. Não foram evidenciadas alterações inflamatórias, aumento na densidade capilar ou no número de miócitos.
Expandindo o uso de células tronco além da cardiopatia isquêmica:
Esse estudo marca um novo rumo na utilização da terapia celular para tratamento da insuficiência cardíaca. É o primeiro trial em humanos testando as células tronco nesse cenário clínico e mostrando bons resultados. A divulgação desse trabalho vem encorajar, ainda mais, os pesquisadores desse campo. Outro ponto interessante foi a técnica de injeção, que usou uma variação da infusão retrógrada pelo seio coronário associado com a infusão direta intracoronária.
Portanto, essa é a mais nova evidência da utilização da terapia celular na miocardiopatia dilatada não isquêmica. Com esses dados inicias estimulantes, o grupo planeja um novo estudo duplo-cego e randomizado para atestar a superioridade de tratamento de um grupo sob outro.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

AVANÇOS NO TRATAMENTO DA CARDIOPATIA COM CÉLULAS-TRONCO AUTÓLOGO DA MEDULA ÓSSEA

AVANÇOS NO TRATAMENTO DA CARDIOPATIA COM CÉLULAS-TRONCO AUTÓLOGO DA MEDULA ÓSSEA
Células-tronco são as células com capacidade de auto-replicação, isto é, com capacidade de gerar uma cópia idêntica a si mesma e com potencial de diferenciar-se em vários tecidos.  Recentemente, a terapia com células-tronco hemopoéticas (CTH) e o transplante de medula óssea (TMO) estavam restritos ao tratamento de portadores de hematopatias e tumores sólidos. O procedimento, antes especulativo e experimental, sedimentou-se ao longo dos anos e modificou a história natural de diversas doenças consideradas incuráveis, como a anemia aplástica e a leucemia mielóide crônica, que passaram a ter uma perspectiva de cura, fato até então impensável.
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Os estudos clínicos utilizando células tronco da medula óssea em cardiologia começaram no Brasil em 2002, usando como premissa para a sua realização dados laboratoriais obtidos com modelos animais que demonstravam a melhora funcional e isquêmica  de áreas do coração quando as células-tronco eram utilizadas em animais com infarto agudo do miocárdio.
No Brasil, em 2004 durante o 3º Congresso Brasileiro de Insuficiência Cardíaca, foi apresentado um estudo, o qual, Vilas-Boas et al  realizaram transplante de células autólogas de medula óssea em pacientes com cardiomiopatia dilatada devida à doença de Chagas. As células tronco foram injetadas na coronária de 10 pacientes aqual foram acompanhados por um período seis meses de 10 pacientes. O procedimento demontrou ausência de complicações e melhora significativa dos parâmetros funcionais já nos primeiros 30 dias após o transplante.
Outro estudo realizado por Strauer et al. foram transplantados células autólogas mononucleares da medula óssea em 10 pacientes com infarto agudo do miocárdio. As células mononucleares foram obtidas de cerca de 40 mL de medula óssea dos próprios pacientes, aspirados em pontos diferentes de ambas as cristas ilíacas e separadas por gradiente de densidade com Ficoll. Durante a angioplastia coronariana, essas células foram injetadas na artéria que irriga a região infartada por meio de cateterbalão. Nos três primeiros meses de seguimento, houve diminuição da área infartada (ventriculografia esquerda), além de aumento da contratilidade da parede afetada. Os resultados mostraram que o transplante de células de medula óssea possibilita a reparação tissular quando realizado num período de cinco a nove dias pós-infarto.
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A área de doenças cardiovasculares esta entre as mais estudadas quanto ao potencial terapêutico das células-tronco de medula óssea. Muitos estudos vem demostando eficácia  e segurança da terapia com células tronco autólogas da medula óssea em doenças cardiovasculares.

Uso de terapia regenerativa com células-tronco da medula óssea em doenças cardiovasculares – perspectiva do hematologista

http://www.scielo.br/pdf/%0D/rbhh/v27n2/v27n2a13.pdf

Transplante de células de medula óssea para o miocárdio em paciente com insuficiência cardíaca secundária á doença de Chagas

Transplante de células de medula óssea para o miocárdio em paciente com insuficiência cardíaca                   secundária á doença de Chagas

Apresentado o primeiro caso de transplante de célula de medula óssea para o miocárdio de um portador de insuficiência cardíaca de etiologia chagásica. Homem, 52 anos, portador de insuficiência cardíaca crônica, em classe funcional III da NYHA, apesar de terapêutica clínica otimizada. Como procedimento, foi aspirado 50 ml de medula óssea através de punção da crista ilíaca, seguidos de filtragem, separação das células mononucleares, ressuspensão e injeção intracoronariana. A fração de ejeção do ventrículo esquerdo em repouso, medida pela ventriculografia radioisotópica com hemácias marcadas, antes do transplante, era de 24% e, após 30 dias, aumentou para 32% sem alterar o esquema medicamentoso. Foram avaliados, antes e 30 dias após o procedimento, respectivamente, o diâmetro diastólico final do ventrículo esquerdo (82 mm; 76 mm); escore de qualidade de vida de Minnesota (55; 06); distância caminhada no teste de 6min (513 m; 683 m). Achados demonstraram ser possível realizar a injeção intracoronariana de célula de medula óssea, sugerindo que este procedimento é potencialmente seguro e efetivo em pacientes com insuficiência cardíaca chagásica.



A insuficiência cardíaca é um mal epidêmico neste início de século. Na América Latina, o mal é ainda agravado por ser uma região endêmica para doença de Chagas onde cerca de 11 milhões de pessoas são portadoras da doença1. Em pacientes chagásicos, o tratamento etiológico específico, após a instalação da síndrome de insuficiência cardíaca, nunca teve sua eficácia comprovada. O tratamento desses pacientes, portanto, em nada difere de outras etiologias2.
Dada a limitação de eficácia das alternativas terapêuticas farmacológicas vigentes para o tratamento da insuficiência cardíaca2, outras formas de tratamento vêm sendo desenvolvidas3. A demonstração da capacidade de células adultas de medula óssea de se diferenciarem in vitro em vários tipos celulares foi o estímulo inicial para o emprego experimental no tratamento da insuficiência cardíaca4.
Estudos preliminares do uso de células de medula óssea no tratamento da miocardiopatia chagásica crônica vêm sendo desenvolvidos no Centro de Pesquisas Gonçalo Moniz (FIOCRUZ-BA), no modelo de camundongos infectados por Trypanosoma cruzi, que apresentaram uma significativa diminuição da inflamação e regressão da fibrose após dois meses de tratamento com células de medula óssea adultas, em comparação com animais controle5.
Essas e outras evidências6-8 serviram como base para o desenho de um protocolo para o emprego de terapia com células de medula óssea em pacientes com miocardiopatia chagásica.

Relato do Caso
Paciente do sexo masculino, 52 anos, com três anos de diagnóstico de insuficiência cardíaca de etiologia chagásica. Vinha evoluindo com quadro estável, porém com severa limitação funcional, em uso de digoxina 0.25mg/d, enalapril 10mg BID, furosemida 40mg/d, espironolactona 25 mg/d e carvedilol 6,25 mg BID. A pressão arterial era 120/80 mmhg, freqüência cardíaca 64 bpm, freqüência respiratória 18 ipm, 61 kg, apresentava estase de jugulares, pulmões limpos, bulhas normofonéticas com sopro holossistólico mitral, irradiado para axila, grau II/VI, sem B3. O fígado estava sob o rebordo costal direito e não havia edema periférico. O eletrocardiograma de 12 derivações revelava ritmo sinusal, bloqueio completo do ramo direito do feixe de His e bloqueio divisional ântero-superior. Radiografia de tórax apresentava cardiomegalia. Os exames bioquímicos e hematológicos de rotina estavam normais: ALT 33.6 UI/l, AST 37.5 UI/l, sódio 136 mEq/l, potássio 4.4 mEq/l, glicose 83 mg/dl, hemoglobina 15.6 g/dl.
O procedimento foi realizado com o paciente sob sedação, através de cinco punções da crista de cada osso ilíaco, de onde foram retirados cerca de 50 ml de medula óssea. O material foi passado em sistema de filtragem de medula óssea (Universidade de Washington® - EUA), em seguida, as células mononucleares foram separadas através de gradiente de Ficol. Após ressuspensão em 20 ml de salina albuminada (5%), cerca de 2,4 X 108 células foram injetadas no sistema coronariano direito e esquerdo, através de cateter de angioplastia. Foram injetados 10ml da suspensão na artéria coronária descendente anterior, lentamente em 10min, 5 ml na artéria circunflexa e 5 ml na artéria coronária direita. Doença arterial coronariana foi excluída através de coronariografia. O paciente não apresentou arritmias nem alterações eletrocardiográficas durante o procedimento. Os dados vitais permaneceram estáveis durante todo o período de internação (tab. I).


Não houve alteração nos marcadores de necrose miocárdica nem nos parâmetros bioquímicos e hematológicos (tab. II). Após 4 dias, o paciente obteve alta hospitalar, em uso das mesmas medicações que vinha utilizando previamente, acrescidas de ácido ascórbico 1g/d. No seguimento inicial de 30 dias, foram realizadas reavaliações clínicas semanais e laboratoriais ao término do período.


Observaram-se redução dos diâmetros ventriculares pela ecocardiografia e aumento significativo da fração de ejeção do ventrículo esquerdo, tanto pela ecocardiografia quanto pela ventriculografia radioisotópica com hemácias marcadas (fig. 1). A capacidade funcional, avaliada tanto pela classe funcional da NYHA, quanto pelo teste de corredor de 6min, apresentou melhora significativa, assim como o escore de qualidade de vida de Minnesota (tab. III).


Discussão
A miocardiopatia chagásica é uma das principais causas de insuficiência cardíaca na América Latina e sua apresentação clínica é semelhante a outras formas de miocardiopatia dilatada. A fase crônica da doença caracteriza-se pelo processo inflamatório multifocal por células mononucleares. Nessa fase da infecção, não existe uma associação entre a presença de parasitas (Trypanosoma cruzi) e a intensidade da inflamação ou fibrose9.
Nas últimas décadas, várias opções terapêuticas vêm sendo desenvolvidas ou aprimoradas no sentido de retardar o progresso da disfunção ventricular em pacientes com insuficiência cardíaca. No entanto, a reversão do processo nunca foi alcançada na sua plenitude e o prognóstico desses pacientes continua sendo bastante limitado.
A terapia celular surgiu como uma opção promissora para o tratamento de casos avançados de insuficiência cardíaca. Orlic e cols demonstraram, em camundongos infartados, o reparo do miocárdio através da formação de novas fibras cardíacas e neoangiogênese após transplante de células de medula óssea6. Strauer e cols foram os primeiros a demonstrar a exeqüibilidade e segurança da infusão intracoronariana de células tronco de medula óssea, para o tratamento de pacientes com miocardiopatia isquêmica7. Perin e cols. demonstraram, pela primeira vez, a transferência de células mononucleares de medula óssea para o miocárdio de pacientes com insuficiência cardíaca isquêmica, sem possibilidade de revascularização percutânea ou cirúrgica. Utilizando uma técnica de mapeamento endomiocárdico eletromecânico (NOGA), as células eram injetadas por via endocárdica na periferia da região isquêmica, resultando em melhora de parâmetros clínicos e laboratoriais8.
Este é o primeiro relato de transplante de células de medula óssea para o coração de pacientes com insuficiência cardíaca de etiologia chagásica. O modelo da doença de Chagas é particularmente atraente para o emprego da terapia com células-tronco. Em tese, para que ocorra a fixação das células tronco no miocárdio é preciso que alguma citocina ou fator quimiotático esteja sendo produzido, atraindo as células3. Como na cardiopatia chagásica crônica ocorre produção elevada de citocinas, devida à inflamação multifocal sub-reentrante, esses fatores podem ser responsáveis pela atração, fixação e diferenciação celular9,10.
Diferentemente de experiências prévias, injetamos uma quantidade de células cerca de 10 a 20 vezes superior (2,4 X 108) ao que vinha sendo relatado em pacientes com miocardiopatia isquêmica7,8. A ausência de efeitos adversos relacionados à infusão de células em concentração mais elevada pode ser atribuída, em parte, a dois fatores: 1) emprego de regime de infusão lenta sob baixa pressão; 2) ausência de doença coronariana em vasos epicárdicos ou na microcirculação.
Outro aspecto que merece consideração é o tipo de célula empregado. Utilizamos a técnica de aspiração da medula óssea e separação de células mononucleares, dentre as quais se incluem aquelas reconhecidas como células-tronco. Uma outra forma de se obter células pluripotentes é através de estimulação da medula com fator de estimulação do crescimento de colônias (G-CSF) e retiradas, através de aféreses seriadas, das populações de células tronco presentes no sangue periférico. A desvantagem teórica em retirar células de sangue periférico acha-se no fato de não estar estabelecido qual linhagem celular é responsável pela diferenciação em cardiomiócitos. Em outras palavras, é possível que outra linhagem das células mononucleares irá se diferenciar em cardiomiócito, ou mesmo em novos vasos, nervos, etc. Outra desvantagem teórica do emprego de células do sangue periférico é que essas células mobilizadas podem seguir, preferencialmente, uma linhagem hematopoiética, tendo permanecido fixas na medula óssea as células que poderiam seguir uma linhagem cardiomiocitária.
A ausência de eventos adversos relacionados ao procedimento sugere a sua segurança. A melhora da função ventricular ocorreu de forma consistente através de dois métodos, sendo um deles o padrão-ouro para avaliação de fração de ejeção. Na ausência de mudanças no esquema terapêutico e, estando o paciente estável há mais de 2 meses, não encontramos nenhuma justificativa que pudesse explicar a melhora da função ventricular, a não ser a terapia celular. Os demais parâmetros de melhora (capacidade funcional, qualidade de vida, classe funcional) devem ser analisados com cautela, especialmente por tratar-se de variáveis subjetivas, influenciáveis pela motivação do paciente.
O caso aqui relatado demonstra que foi possível realizar a injeção intracoronariana de células transplantadas da medula óssea em pacientes com insuficiência cardíaca de etiologia chagásica, sugindo que este procedimento é potencialmente seguro e efetivo. Será necessária uma série maior de casos para confirmar se os achados observados repetir-se, justificando o início de ensaios clínicos de fase II.

Referências
1. Dias JCP, Silveira AC and Schofield CJ. The impact of Chagas disease control in Latin America: a review. Mem. Inst. Oswaldo Cruz. 2002; 97(5): 603-12.        [ Links ]
2. Mesquita ET, Bocchi EA, Vilas-Boas F, Batlouni M. Revisão das II Diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia para o Diagnóstico e Tratamento da Insuficiência Cardíaca. Arq Bras Cardiol. 2002; 79: S-IV.        [ Links ]
3. Körbling M and Estrov Z. Adult Stem Cells for Tissue Repair - A New Therapeutic Concept? N Engl J Med. 2003; 349: 570-82.        [ Links ]
4. Pittenger MF, Mackay AM, Beck SC et al. Multilineage potential of adult human mesenchimal stem cells. Science.1999; 284: 143.        [ Links ]
5. Soares MBP, Lima RS, Rocha LL et al. Transplanted bone marrow cells repair heart tissue and reduce myocarditis in chronic chagasic mice. Am J Pathology (in press).        [ Links ]
6. Orlic D, Kajstura J, Chimenti S, et al. Bone marrow cells regenerate infarcted myocardium. Nature. 2001; 410: 701-05.        [ Links ]
7. Strauer BE, Brehm M, Zeus T, et al. Repair of infarcted myocardium by autologous intracoronary mononuclear bone marrow cell transplantation in humans. Circulation. 2002; 106: 1913-18.        [ Links ]
8. Perin EC, Dohmann HFR, Borojevic R et al. Transendocardial, autologous bone marrow cell transplantation for severe, chronic ischemic heart failure. Circulation.2003; 107: 2294-2302.        [ Links ]
9. Soares MBP, Pontes-de-Carvalho L, Ribeiro-dos-Santos R. The pathogenesis of Chagas' disease: when autoimmune and parasite-specific immune responses meet. An Acad Bras Cienc. 2001; 73: 547-59.        [ Links ]
10. Vilas-Boas F, Ribeiro-dos-Santos R, Soares MBP et al. Identification of regional differences in proinflammatory cytokine concentrations in chronic heart failure due to Chagas' cardiomyopathy: a key element in the comprehension of the disease. J Am Coll Cardiol. 2003; 41: 155A.        [ Links ]

Transplante de células da medula óssea no tratamento da cardiopatia chagásica crônica

 Transplante de células da medula óssea no tratamento da                  cardiopatia chagásica crônica

                                       Bone marrow cells transplant in the treatment
                                             of chronic chagasic cardiomyopathy

             Ricardo Ribeiro dos Santos1,2, Milena Botelho Pereira Soares1,2
                           e Antônio Carlos Campos de Carvalho2,

RESUMO
A cardiopatia chagásica crônica é ainda uma das maiores causas de óbito por insuficiência cardíaca na América
Latina e para a qual não há nenhum tratamento eficaz até o momento. Enquanto a população de indivíduos com
doença de Chagas aguarda o desenvolvimento de novos quimioterápicos mais eficientes e de menor toxicidade para
a eliminação do Trypanosoma cruzi, uma nova estratégia surgiu na tentativa de reparar ou diminuir os danos causados
ao miocárdio de pacientes com forma crônica cardíaca. Trata-se do transplante de células de medula óssea obtidas
do próprio indivíduo a ser tratado, que pode levar à melhora funcional e da qualidade de vida dos pacientes, como
ocorreu em estudos utilizando esta abordagem para o tratamento de pacientes com insuficiência cardíaca de etiologia
isquêmica. Os possíveis efeitos de terapias celulares e sua utilização em pacientes cardiopatas chagásicos crônicos
são discutidos no presente artigo.

Nos últimos anos, uma nova área da medicina vem sendo desenvolvida, que abre perspectivas inovadoras para o tratamento de doenças crônico-degenerativas. É a chamada medicina regenerativa e consiste na utilização de células, fatores de proliferação e diferenciação celulares e biomateriais que permitem ao próprio organismo reparar tecidos e órgãos lesados. Alguns dos alvos terapêuticos são órgãos considerados
por muito tempo como incapazes de desenvolver quais quer processos de regeneração, como o cérebro e o  coração. Os relatos d e demonstrações de que os tecidos adultos possuem células-tronco pluripotentes próprias, de que há migração de células-tronco do sangue periférico e sua diferenciação para tipos celulares residentes em órgãos como o coração e de que células já diferenciadas podem proliferar em resposta a agressões teciduais têm  sido cada vez mais freqüentes na literatura, e indicam que o processo de regeneração ocorre nestes tecidos,embora possa não ser eficiente para levar à cura dependendo
do grau de dano tecidual que tenha ocorrido. Este é o caso do infarto do miocárdio, onde uma baixa taxa de proliferação de mioblastos e cardiomiócitos pode ser detectada nas bordas das lesões, porém não o suficiente para reparar todo o dano tecidual causado pela isquemia, resultando em extensas áreas de fibrose.

APLICAÇÕES DE TERAPIAS COM CÉLULAS-TRONCO EM CARDIOPATIAS
Como mencionado acima, a constatação da pluripotencialidade das células-tronco abriu novas possibilidades terapêuticas. Nas cardiopatias em particular, o avanço das terapias celulares foi fantástico. Em casos de infarto do miocárdio, a injeção de célulastronco obtidas de medula óssea nas bordas da área lesada pela isquemia induziu o reparo do miocárdio lesado e causou a melhora funcional, inicialmente em estudos utilizando modelos animais, e mais recentemente, em pacientes. Nos trabalhos experimentais, demonstrou- se que a melhora funcional estava associada a uma diminuição da área de fibrose, à formação de novos cardiomiócitos e a neovascularização. O tratamento de animais com hormônios celulares, tais como o G-CSF e o SCF,capazes de induzir a mobilização de células de medula óssea para a periferia, foi também capaz de diminuir as lesões causadas posteriormente por um processo isquêmico no miocárdio.

Recentemente, a injeção direta de fatores de crescimento celular (IGF-1 e HGF) em corações de ratos lesados por agressão isquêmica, resultou em recuperação da função cardíaca e regeneração celular (Nadal-Ginard: comunicação pessoal), antevendo a possibilidade de terapias baseadas na simples injeçãode fatores de estimulação e/ou crescimento celular.Nossos estudos em modelos animais de cardiopatia isquêmica
crônica demonstraram que células-tronco oriundas da medula óssea, que são de fácil obtenção e que podem ser coletadas do próprio indivíduo a ser tratado (transplante autólogo), são eficazes no tratamento de insuficiência cardíaca de origem isquêmica, e indicaram um potencial da utilização desta terapia em outras cardiopatias.
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TRATAMENTO DA CARDIOPATIA CHAGÁSICA CRÔNICA COM CÉLULAS-TRONCO
A cardiopatia chagásica crônica, uma doença que afeta milhões de indivíduos na América Latina, é uma  doença para a qual não há nenhum tratamento eficaz. Esta doença é caracterizada por uma resposta inflamatória que leva à destruição progressiva do miocárdio, resultando em cardiomegalia e insuficiência cardíaca congestiva, levando à morte dos indivíduos. Embora os mecanismos de patogênese da doença ainda não estejam esclarecidos, a melhora da função cardíaca, como ocorre no reduzido número de pacientes que recebem transplante cardíaco, previne a acelerada evolução para o óbito. Portanto, uma terapia capaz de causar uma melhora da função cardíaca, e que seja mais accessível à população de cardiopatas chagásicos, em sua grande maioria de baixa renda, é de grande interesse.Para testar a eficácia da terapia com células de medula óssea na cardiopatia chagásica, utilizamos o modelo experimental de
camundongos isogênicos infectados pela cepa Colombiana de Trypanosoma cruzi. Células de medula óssea foram obtidas de camundongos normais e injetadas por via endovenosa em camundongos com cardiopatia chagásica crônica. O grau de inflamação e de fibrose foi avaliado em vários períodos pós transplante. Camundongos transplantados tiveram uma melhora significativa na miocardite dois meses após o transplante, resultante de um aumento de apoptose nas células do infiltrado inflamatório. Mais surpreendentemente, a fibrose existente no coração chagásico crônico diminuiu significativamente, indicando
ser este um processo reversível. Os efeitos da terapia com células de medula óssea foram duradouros, uma vez que o número de células inflamatórias e a área de fibrose permaneceram
reduzidos até seis meses após o tratamento. Utilizando células de medula óssea obtidas de camundongos chagásicos crônicos,infectados juntamente com os camundongos receptores,verificamos que estas células têm potencial semelhante de induzir a melhora da miocardite e diminuição de fibrose, sugerindo que
o transplante autólogo de células de medula óssea em pacientes chagásicos poderia trazer resultados benéficos para estes pacientes.