quinta-feira, 27 de junho de 2013

Transplante de células da medula óssea no tratamento da cardiopatia chagásica crônica

 Transplante de células da medula óssea no tratamento da                  cardiopatia chagásica crônica

                                       Bone marrow cells transplant in the treatment
                                             of chronic chagasic cardiomyopathy

             Ricardo Ribeiro dos Santos1,2, Milena Botelho Pereira Soares1,2
                           e Antônio Carlos Campos de Carvalho2,

RESUMO
A cardiopatia chagásica crônica é ainda uma das maiores causas de óbito por insuficiência cardíaca na América
Latina e para a qual não há nenhum tratamento eficaz até o momento. Enquanto a população de indivíduos com
doença de Chagas aguarda o desenvolvimento de novos quimioterápicos mais eficientes e de menor toxicidade para
a eliminação do Trypanosoma cruzi, uma nova estratégia surgiu na tentativa de reparar ou diminuir os danos causados
ao miocárdio de pacientes com forma crônica cardíaca. Trata-se do transplante de células de medula óssea obtidas
do próprio indivíduo a ser tratado, que pode levar à melhora funcional e da qualidade de vida dos pacientes, como
ocorreu em estudos utilizando esta abordagem para o tratamento de pacientes com insuficiência cardíaca de etiologia
isquêmica. Os possíveis efeitos de terapias celulares e sua utilização em pacientes cardiopatas chagásicos crônicos
são discutidos no presente artigo.

Nos últimos anos, uma nova área da medicina vem sendo desenvolvida, que abre perspectivas inovadoras para o tratamento de doenças crônico-degenerativas. É a chamada medicina regenerativa e consiste na utilização de células, fatores de proliferação e diferenciação celulares e biomateriais que permitem ao próprio organismo reparar tecidos e órgãos lesados. Alguns dos alvos terapêuticos são órgãos considerados
por muito tempo como incapazes de desenvolver quais quer processos de regeneração, como o cérebro e o  coração. Os relatos d e demonstrações de que os tecidos adultos possuem células-tronco pluripotentes próprias, de que há migração de células-tronco do sangue periférico e sua diferenciação para tipos celulares residentes em órgãos como o coração e de que células já diferenciadas podem proliferar em resposta a agressões teciduais têm  sido cada vez mais freqüentes na literatura, e indicam que o processo de regeneração ocorre nestes tecidos,embora possa não ser eficiente para levar à cura dependendo
do grau de dano tecidual que tenha ocorrido. Este é o caso do infarto do miocárdio, onde uma baixa taxa de proliferação de mioblastos e cardiomiócitos pode ser detectada nas bordas das lesões, porém não o suficiente para reparar todo o dano tecidual causado pela isquemia, resultando em extensas áreas de fibrose.

APLICAÇÕES DE TERAPIAS COM CÉLULAS-TRONCO EM CARDIOPATIAS
Como mencionado acima, a constatação da pluripotencialidade das células-tronco abriu novas possibilidades terapêuticas. Nas cardiopatias em particular, o avanço das terapias celulares foi fantástico. Em casos de infarto do miocárdio, a injeção de célulastronco obtidas de medula óssea nas bordas da área lesada pela isquemia induziu o reparo do miocárdio lesado e causou a melhora funcional, inicialmente em estudos utilizando modelos animais, e mais recentemente, em pacientes. Nos trabalhos experimentais, demonstrou- se que a melhora funcional estava associada a uma diminuição da área de fibrose, à formação de novos cardiomiócitos e a neovascularização. O tratamento de animais com hormônios celulares, tais como o G-CSF e o SCF,capazes de induzir a mobilização de células de medula óssea para a periferia, foi também capaz de diminuir as lesões causadas posteriormente por um processo isquêmico no miocárdio.

Recentemente, a injeção direta de fatores de crescimento celular (IGF-1 e HGF) em corações de ratos lesados por agressão isquêmica, resultou em recuperação da função cardíaca e regeneração celular (Nadal-Ginard: comunicação pessoal), antevendo a possibilidade de terapias baseadas na simples injeçãode fatores de estimulação e/ou crescimento celular.Nossos estudos em modelos animais de cardiopatia isquêmica
crônica demonstraram que células-tronco oriundas da medula óssea, que são de fácil obtenção e que podem ser coletadas do próprio indivíduo a ser tratado (transplante autólogo), são eficazes no tratamento de insuficiência cardíaca de origem isquêmica, e indicaram um potencial da utilização desta terapia em outras cardiopatias.
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TRATAMENTO DA CARDIOPATIA CHAGÁSICA CRÔNICA COM CÉLULAS-TRONCO
A cardiopatia chagásica crônica, uma doença que afeta milhões de indivíduos na América Latina, é uma  doença para a qual não há nenhum tratamento eficaz. Esta doença é caracterizada por uma resposta inflamatória que leva à destruição progressiva do miocárdio, resultando em cardiomegalia e insuficiência cardíaca congestiva, levando à morte dos indivíduos. Embora os mecanismos de patogênese da doença ainda não estejam esclarecidos, a melhora da função cardíaca, como ocorre no reduzido número de pacientes que recebem transplante cardíaco, previne a acelerada evolução para o óbito. Portanto, uma terapia capaz de causar uma melhora da função cardíaca, e que seja mais accessível à população de cardiopatas chagásicos, em sua grande maioria de baixa renda, é de grande interesse.Para testar a eficácia da terapia com células de medula óssea na cardiopatia chagásica, utilizamos o modelo experimental de
camundongos isogênicos infectados pela cepa Colombiana de Trypanosoma cruzi. Células de medula óssea foram obtidas de camundongos normais e injetadas por via endovenosa em camundongos com cardiopatia chagásica crônica. O grau de inflamação e de fibrose foi avaliado em vários períodos pós transplante. Camundongos transplantados tiveram uma melhora significativa na miocardite dois meses após o transplante, resultante de um aumento de apoptose nas células do infiltrado inflamatório. Mais surpreendentemente, a fibrose existente no coração chagásico crônico diminuiu significativamente, indicando
ser este um processo reversível. Os efeitos da terapia com células de medula óssea foram duradouros, uma vez que o número de células inflamatórias e a área de fibrose permaneceram
reduzidos até seis meses após o tratamento. Utilizando células de medula óssea obtidas de camundongos chagásicos crônicos,infectados juntamente com os camundongos receptores,verificamos que estas células têm potencial semelhante de induzir a melhora da miocardite e diminuição de fibrose, sugerindo que
o transplante autólogo de células de medula óssea em pacientes chagásicos poderia trazer resultados benéficos para estes pacientes.

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