domingo, 21 de julho de 2013

Estudo First-in-Man utilizando Células Tronco na Miocardiopatia Dilatada Não Isquêmica – Por Cristiano Cardoso

Recentes trabalhos têm mostrado o benefício da terapia celular em pacientes com miocardiopatia dilatada isquêmica e pós-infarto agudo do miocárdio. No entanto, em portadores de miocardiopatia dilatada idiopática, as células tronco não foram efetivamente testadas.
Essa semana, porém, foi publicado no Journal of American College of Cardiology (J Am Coll Cardiol 2006; 48: 2350-2351) o primeiro estudo em humanos (First-in-Man) utilizando essa terapia. O ABCD trial randomizou 44 pacientes com diagnóstico de miocardiopatia dilatada não isquêmica para tratamento com células tronco (CT, n=24) ou controle (Cont, n=20). Os critérios de inclusão foram presença de insuficiência cardíaca classe II-IV, fração de ejeção (FE) <35% e coronárias normais. O objetivo principal do estudo foi mudança na classe funcional, melhora na função ventricular e mortalidade. Após aspiração de medula óssea (50-60 ml), a fração mononuclear foi separada utilizando gradiente de densidade (Ficoll), e as células injetadas por uma técnica modificada. Por cateterismo cardíaco direito, o seio coronário foi obstruído com cateter de Swan-Ganz. Após a obstrução da drenagem venosa, 2/3 das células foram injetadas diretamente na coronária esquerda e, o restante, na coronária direita. No dia seguinte os pacientes foram liberados, sendo acompanhados clinicamente com 1 semana, 1 e 3 meses, e a seguir anualmente. A avaliação da terapia foi feita por ecocardiograma com estimativa da FE por método de Simpson. Atualmente com 6 meses de seguimento, o grupo que recebeu as células apresentou melhora na FE (20±7.4% para 25±12% no CT x 15±5.4% para 16±4.7% no Cont, p<0.05) e redução no volume sistólico final (144±85ml para 116±68ml no CT, p<0.05). Não houve alterações em ambos os grupos relacionados ao volume diastólico final. Com relação à mortalidade, nenhuma diferença significativa foi observada. Quatro pacientes morreram no grupo CT e 2 no controle. Considerando a mudança na classe funcional, no grupo tratado 16 pacientes (62%) regrediram para NYHA classe I, enquanto que no grupo controle somente 2 (10%) pacientes apresentaram melhora (p<0.0001). Outro aspecto importante no estudo foi a realização de biópsia miocárdica no início e aos 3 meses de acompanhamento. Não foram evidenciadas alterações inflamatórias, aumento na densidade capilar ou no número de miócitos.
Expandindo o uso de células tronco além da cardiopatia isquêmica:
Esse estudo marca um novo rumo na utilização da terapia celular para tratamento da insuficiência cardíaca. É o primeiro trial em humanos testando as células tronco nesse cenário clínico e mostrando bons resultados. A divulgação desse trabalho vem encorajar, ainda mais, os pesquisadores desse campo. Outro ponto interessante foi a técnica de injeção, que usou uma variação da infusão retrógrada pelo seio coronário associado com a infusão direta intracoronária.
Portanto, essa é a mais nova evidência da utilização da terapia celular na miocardiopatia dilatada não isquêmica. Com esses dados inicias estimulantes, o grupo planeja um novo estudo duplo-cego e randomizado para atestar a superioridade de tratamento de um grupo sob outro.

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